EDUCAÇÃO CAMPO-MAIORENSE NA 1ª REPÚBLICA (1889-1930) Por Celson Chaves

EDUCAÇÃO CAMPO-MAIORENSE NA 1ª REPÚBLICA (1889-1930) Por Celson Chaves

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Mesmo com a proclamação da República no Brasil em 1889, a educação no Piauí mudara muito pouco. A mudança de regime político significou apenas a transferência do poder e do destino da nação para as mãos da aristocracia agrária de mentalidade escravocrata. As condições sociais e econômicas continuavam as mesmas. A desigualdade era gritante e o povo continuava excluído de quase tudo. No Piauí não foi diferente.

O Piauí sem estradas para dinamizar o comércio, sem recursos para investir em infraestrutura, com pouquíssimas escolas e professores para resolver o problema crônico do analfabetismo manteve-se estagnado. Mais de 70% da população eram de analfabetos. Um Estado ruralista castigado por secas que disseminavam fome e miséria.

Os municípios seguiam a realidade do Estado. O ensino primário era a única modalidade de educação existente em Campo Maior. O acesso a “instrução primária” era restrito. Algumas abnegadas professoras mantinham escolas por conta própria e do seu jeito. Os recursos eram poucos. Faltava material escolar e fardamento, as escolas eram instaladas em casas improvisadas alugadas pela prefeitura. A baixa frequência de alunos conduzia a escola ao caminho da indiferença e da exclusão.

No início da República (1893): “a instrução por algum outro ponto do município, onde a população vive a mingua dela à falta de escola”. A Intendência Municipal (Prefeitura) mantinha despesas apenas com o professor Joaquim Dias de Santana para turma do sexo masculino e uma professora para a turma do sexo feminino. Ambos recebiam 900.000 mil-réis. No ano de 1894, houve redução salarial de 9000.000 para 850$000 mil-réis. A cota de professores do Estado também não passava de dois: um homem e uma mulher. O ensino particular da mesma forma.

Em 1890, O inspetor de ensino da Secretaria de Educação Estadual no município era responsável pela verificação da situação das escolas, estabelecer a lotação, o desempenho e demissão de professores. O cargo estava nas mãos do coronel Lysandro Pereira da Silva, sem nenhuma qualificação profissional na área.

Em 1895 a Intendência Municipal mantinha alguns “suprimento aos alunos pobres (aulas públicas primárias)”. O investimento público era reduzido.

Na tentativa de oferecer mais acesso a cultura e suporte aos estudos, o Conselho Municipal cria em 1909, a primeira Biblioteca Pública da cidade, estabelecendo-a em uma das salas da casa do Conselho. Na década de 1910, a cidade não possuía dez educadores.

O esforço do poder público na tentativa de organizar o ensino primário do município, ministrado por professores interinos, muitos sem formação pedagógica, continuava existindo. A precarização do ensino era mais gritante na zona rural. Totalmente abandonada.

A mudança na educação dava-se de forma lenta, lentíssima. O ensino improvisado prevalecia. Até a década de 1920 existia duas escolas públicas na cidade, uma estadual, outra municipal e a Escola Maria Auxiliadora de propriedade da professora José Lima. O número de crianças fora da escola era grande.

EDUCAÇÃO CAMPO-MAIORENSE NA 1ª REPÚBLICA (1889-1930) Por Celson Chaves
Escola Maria Auxiliadora (1933). Na foto, da esquerda para direita, vê-se a professora Josefa Lima. Foto: LIMA, Reginaldo Gonçalves. Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia. Campo Maior-PI, edição do autor, 1995.

O cronista e jornalista Abdias Silva descreve o seu tempo de estudante em Campo Maior: “nada de grupo escolar. “Eram duas escolinhas, uma municipal e a de dono Josefa Lima, que tinha na sala um crucifixo e uma palmatória” quem chegava tinha de dizer: ‘louvado seja nosso senhor Jesus Cristo”. Outro cronista, Antônio Andrade Filho, conhecido Irmão Turuka, também comenta sobre o método de ensino da professora Josefa Lima baseado nos castigos físicos. Segundo Turuka, a professora José Lima, uma referência da educação campo-maiorense no período da Primeira República: “manteve sua escola em funcionamento permanente conservando sobre a mesa silenciosa e vigilante a palmatória disciplinadora do ensino do Alfabeto e da Taboado”.

A educação pública era algo muito distante da realidade. O texto do cronista Octacílio Eulálio confirma o contexto educacional descrito por Abdias Silva: “lembro-me ainda de que nos dias de minha infância, frequentei a Escolha Pública de Campo Maior, que então era composta de apenas duas classes distintas: a masculina e feminina. A masculina era dirigida por competente professora normalista D. Maria Briolanja Genuíno de Oliveira e coadjuvada por professora leiga D. Maria do Carmo Moura mais conhecida por D. Yaya Moura. A feminina também dirigida por competente professora normalista D. Maria de Jesus da Costa Araújo”. 

O acesso à educação era difícil, a cultura mais ainda. Os jornais que circulavam na cidade vinham de Teresina. Não existiam em Campo Maior clubes, sindicatos (pelos menos até 1924, quando foi criado o Centro Operário), associações.  As tertúlias e os festejos religiosos eram os únicos momentos de lazer no pacato burgo. O ensino coisa de famílias abastadas. Não havia calendário escolar oficial. As aulas eram esporádicas. Duravam alguns meses. Para completar a alfabetização dos filhos, fazendeiros contratavam professores leigos para ensinar em casa. As camadas populares não recebiam o básico: ler e escrever.

Atuaram no magistério do período da Primeira República os seguintes professores: João Paulo de Carvalho (professor do estado), Manoel Cavalcanti de Barros (professor particular), José Fernandes Alves, alferes Raimundo Antônio Luiz da Paz, 1º mestre-regente da banda municipal (professor do estado); Maria do Carmo Mendes Moura (professora do estado), as irmãs Briolanja Genuína de Oliveira (professora do estado) e Rosina Oliveira (professora particular), filhas do coronel Emydio Genuíno Oliveira, Josefa Lima (professora particular), Iaiá Moura (professora particular) e Mocinha da Costa Araújo (professora particular).

A educação pública firmou de modo tímido em Campo Maior no período da Primeira República. O Governo do Estado passou auxiliar de forma mais sistemática a região, ao criar a primeira Unidade Educacional na década de 1920; enquanto a prefeitura, na medida do possível, mantinha outros estabelecimentos funcionando. O serviço sofria descontinuidades, funcionando de modo precário.

FONTE CONSULTADA

CHAVES, Celson. História da Educação Campo-Maiorense: políticas educacionais da Prefeitura de Campo Maior (1945-1975). Campo Maior, edição do autor. 2012.

FERRO, Maria do Amparo Borges. Educação e sociedade no Piauí Republicano. Teresina, 1996.

LIMA, Reginaldo Gonçalves. Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia. Campo Maior-PI, edição do autor, 1995.