PREFEITO JAIME DA PAZ por Celson Chaves

Facapi

Nas eleições de 15 de novembro de 1970, o prefeito Raimundo Nonato Andrade indica Jaime da Paz para a chefia do executivo municipal. Sua boa gestão garantiu que ele fizesse seu sucessor. Jaime disputou o pleito contra Joaquim Mamede Lima. Ambos concorriam o cargo pelo mesmo partido, a ARENA, dividida em duas alas antagônicas. Na vigência da Ditadura Militar foi instalado o bipartidarismo: a ARENA governista e o MDB oposicionista. Em Campo Maior, o MDB, na prática, era uma sigla morta. Militar reformado e simpatizante da Ditadura, Jaime deu apoio ao regime ao promover grandiosas datas cívicas como o 7 de Setembro e a Semana da Pátria. A maioria dos políticos apoiava a ditadura, parte dos religiosos (Padre Isaac José Vilarinho) e escritores (Cunha Neto).

A eleição de 1970 garantia ao candidato vitorioso um mandato de apenas dois anos (1971-1972). Jaime foi eleito num apertado placar. Vitorioso uma vez, tentou a reeleição em 1976 e não conseguiu. José Olímpio da Paz, seu adversário, venceu com folga o pleito daquele ano. Antes, Jaime com ajuda de Raimundo Nonato Andrade, seu principal aliado, tinha conseguido eleger Dácio Bona a prefeito, numa campanha de candidato único (1973).

Prefeito Jaime da Paz. Mandato: 1972-1973.

Raimundo Nonato Andrade (professor), Jaime da Paz (militar) e Dácio Bona (odontólogo) formaram uma tríade de prefeitos que não apenas consolidaram o processo de urbanização em Campo Maior, como controlaram o poder municipal entre 1967 e 1977. Alternando-se no comando da prefeitura (por dez anos), os três prefeitos deram continuidade ações e obras não concluída na gestão de um pelo outro. O esquema do trio político foi quebrado com a vitória eleitoral de José Olímpio da Paz, primo de segundo grau de Jaime da Paz, em 1976. A diferença de votos desta vez foi grande.

A imprensa campo-maiorense, diga-se o jornal A Luta foi um importante aliado do governo Jaime de Paz. O redator-chefe da gazeta, Ernani Napoleão Lima era filho do vice-prefeito de Jaime, Raimundo Helvécio Lima.  Raimundo Antunes Ribeiro, fundador do jornal, esteve na folha de pagamento nas gestões de Raimundo Andrade, Jaime da Paz e Dácio Bona. O Jornal A Luta entrou na campanha eleitoral de 1970 para amenizar os efeitos da disputa política e apaziguar os ânimos entre alas rivais da ARENA: Sobre a eleição da ARENA 1 e 2 não falamos atendendo apelo do Diretor de A LUTA, que não deseja magoar os derrotados. UMAS & OUTRAS Procópio Pereira”.

Os adversários tentavam acusar Jaime de todas as maneiras e jogava a opinião pública contra ele, mas com a ajuda de jornalistas do A Luta como José Rodrigues de Miranda, as acusações eram rebatidas em forma de artigo: “Sigefredo continua no propósito de desmoralizar Jaime”.

Jaime nasceu no lugar Campestre, zona rural de Campo Maior, em 22 de abril de 1922  e faleceu em Teresina, a 07 de fevereiro de 2018. Filho de José Melo Paz e Francisca de Sousa Frota ficou órfão de pai e mãe aos seis anos, passando a residir com seus pais adotivos: sua tia Cândida de Mello Paz (Sicândia) e José Deus e Silva (Cazeba). Casou-se, em 19 de janeiro de 1957, com Mariema Nogueira Paranaguá, natural de Corrente-PI.

Iniciou seus estudos no Colégio Valdivino Tito, como pouquíssimos jovens campo-maiorenses, teve o privilégio de prosseguir nos estudos, ao morar em Fortaleza, onde frequentou o curso de Contabilidade, concluindo na Escola Superior de Comércio do Rio de Janeiro. O ensino em Campo Maior resumia-se ao antigo primário. Ingressou no Exército em São Paulo. Fez os cursos de cabo e sargento no 29º BC. Serviu na 2ª Cia no Rio de Janeiro.  Fez concurso para a Escola Técnica de Aviação em São Paulo.

Depois de uma longa temporada fora de Campo Maior retorna a cidade nos idos de 1950, como oficial graduado do Exército. Jaime começa atuar como professor de Contabilidade e logo depois abre sua loja de miudezas na Avenida Demerval Lobão, esquina próximo ao Mercado Público. Projeta-se cedo na sociedade, ganhando fama como comerciante. Seu nome logo é lembrado pela população numa pesquisa realizada pelo A Luta, passando a figurar nas páginas do jornal, ao lado de grandes personalidades campo-maiorenses da época. Foi maçom, venerável por quatro vezes da Loja Costa Araújo Nº03 e quatro vezes presidente do Rotary Clube e presidente da Associação Comercial de Campo Maior.

Em seu discurso de posse, Jaime prometeu continuar a boa gestão do seu antecessor e apoiador Raimundo Nonato Andrade. Ele procurou tirar vantagens da boa condição do Brasil. O país cresceu cerca de 10% durante o governo do presidente Médici (1969-1974). O “Milagre Econômico” como ficou conhecido esse período de prosperidade teve um preço social muito alto: rebaixamento salarial dos trabalhadores e o aumento na diferença da distribuição de renda entre ricos e pobres. O Piauí, sob o comando do engenheiro Alberto Silva progredia em construções, principalmente em Teresina, que se transformara num canteiro de obras públicas. Campo Maior era quarta economia do Estado, graças à pujança do comércio, pecuária e cera de carnaúba.

Jaime da Paz deu continuidade o processo de urbanização de Campo Maior com a construção de duas importantes obras: o Mercado Público e o Terminal Rodoviário. O primeiro foi concluído em sua gestão, graças ao rendoso recurso obtido com a venda das ações da Petrobras pertencente à prefeitura na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Os valores chegaram a quatrocentos mil cruzeiros. Concluiu a edificação do cemitério do bairro São João, iniciado na gestão do professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana. Construiu o Minimercado dos povoados Lagoinha e Conceição do Brasão (1972).

Mercado Público de Campo Maior. Inaugurado em 1972. A principal obra do governo de Jaime da Paz.

Jaime foi ao Rio de Janeiro cuidar pessoalmente das negociações da venda das ações da Petrobras, também procurou o Departamento Nacional de Telecomunicações para resolver o problema da Rádio Clube de Campo Maior, idealização dos jornalistas campo-maiorenses, principalmente do A Luta. Na mesma viagem, ele dirigiu-se ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para discutir a construção do Monumento do Jenipapo, “recebido à recomendação de se movimentar junto às autoridades estaduais, para que estas, juntamente com as federais e o próprio município, num trabalho conjunto possam construir esse monumento” (Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior, 02 de julho de 1971). Em resumo, foi uma viagem proveitosa. O Monumento do Jenipapo foi inaugurado em 1974 pelo governador do Piauí Alberto Silva.

Inauguração do Monumento da Batalha do Jenipapo. Governo do Estado do Piauí. 06 de novembro de 1973. Entre as flâmulas tremulando a primeira bandeira de Campo Maior, autoria do prefeito Raimundo Nonato Andrade. Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Inaugura%C3%A7%C3%A3o_do_monumento_da_Batalha_do_Jenipapo_em_1973.jpg

Jaime era um gestor austero e negociador. A cidade crescia rapidamente e não conseguia a tender a demanda da população principalmente por água e energia. Para reforçar o caixa da prefeitura e acelerar no atendimento ao público, Jaime implantou série de tarifas e taxas. O mandato foi curto, mas conseguiu realizar importantes obras e serviços.

Ele deu início à expansão do abastecimento de água e energia para os bairros. Assinou contratos com a antiga CEPISA, mas a empresa de fornecimento de energia do Piauí encontrava-se com muitas dificuldades de expansão do serviço por conta de recursos. O governo de Jaime teve a proeza de realizar mil ligações de energia residencial. Feito substancioso.

O prefeito sofreu duras críticas na Câmara pela retirada de chafarizes, alguns abandonados, instalados “em certos bairros da cidade” na gestão de Raimundo Santana. Segundo vereadores, os chafarizes completavam o deficitário atendimento do SAAE, atendendo principalmente os mais pobres. A demanda era grande e a cobrança feroz. O edil Cunha Neto cobrava o concertos de praças e chafarizes; Waldemar Ribeiro Carvalho reclamava da “má assistência” as escolas da zona rural, que se encontravam sem merenda, sem banco, sem carteiras, “enfim a falta de mais que se faz necessário em uma escola regular”.

Jaime avançou na abertura de novas escolas, principalmente no interior, contratou mais professores. O município arrecadava bem, mas as verbas eram insuficientes. O ensino apresentava muita deficiência e precisava de recursos extras para amenizar os problemas. Professores sem a mínima qualificação eram contratados por serem apadrinhados políticos. Muitos chegavam abandonar o cargo por atraso no pagamento. Jaime fez reforma no ensino municipal regulando o horário de trabalho dos professores, na organização e valorização do magistério por meio de cursos de formação e aperfeiçoamento pedagógico.

Mesmo diante das dificuldades, o prefeito começou a distribuir merendas nas escolas da zona rural. Com aumento nas despesas da educação, Jaime passou o Ginásio Orientado para o Trabalho Cândido Borges Castelo Branco (antigo GOT, atual CEPTI) para o Governo do Estado, em 1971. Ficou apenas com as escolas primárias. Em 1972, iniciou a construção de “Cantinas-Pré-Escolares”.

Como é óbvio e ressalta a evidencia, o número de escolas se multiplica a cada dia e, com elas, o número de alunos.

O serviço de merenda escolar dá atendimento a todas essas escolas, mas carece de pessoal que é fornecido por esta prefeitura municipal.

Atualmente, estamos precisando, no mínimo de cinco “encarregadas de Cantina” para atender às nossas escolas e à sua população escolar. É o que vulgarmente se chama de merendeira.

Temos que criar os cargos, no desejo de fomentar a educação, pois crianças há, diga-se em verdade, que tomam com desejam a merenda escolar que recebem nos estabelecimento aonde estudam.

Mensagem nº? ao presidente da Câmara Municipal, Raimundo Helvécio Lima. Jaime da Paz. 17 de julho de 1972.

 

Garoto frente a frente com o prefeito Jaime da Paz e Mariema Paz solicitando, segundo o historiador Assis Lima, “a construção de uma escola em sua comunidade”. 1970. Foto extraída do livro “Campo Maior em Recortes” de autoria do historiador Assis Lima. Edição 2008.

Na saúde, Jaime assinou contrato com a Fundação de Serviço de Saúde Pública, órgão do governo federal para prestar o serviço público de Saúde. Não havia secretária municipal de saúde. O recurso da pasta era junto com a educação.  O serviço deixava a desejar. Por conta da falta de saneamento, das péssimas condições sanitárias a cidade padecia de surtos periódicos de cólera, gripe e de piolho, crianças com tuberculoses, aleijados… A cooperação com entidades e governos era fundamental para amenizar o sofrimento e ampliar assistência aos enfermos.  O Centro Espírita Caridade e Fé era uma das instituições que abrigava e assistia todo tipo de enfermo.  O bairro Cariri era o bairro mais atingido por epidemias. Jaime atacou de todos os modos para melhorar o setor:

Tenho a honra de encaminha a V. Exa., a fim de ser submetido a apreciação dessa Egrégia Câmara, o projeto de Lei Nº23/72, anexo, que cria dois cargos de enfermeiras, no setor de saúde municipal e dá outras providencias.

A expansão que se tem verificado, nos últimos tempos, no setor de Saúde Municipal, em consequência do aumento do número de Mini-Postos de Saúde, tem determinado, também, o aumento de números de enfermeiras, necessárias para servir nos referidos Postos, sem que os mesmos não cumpririam sua finalidade.

Estas razões e motivos levam-me a esperar favorável acolhida de por parte dessa Egrégia Câmara para a proposição de lei mencionada. Mensagem Nº22/72 enviada ao Presidente da Câmara Municipal de Campo Maior. Raimundo Helvécio Lima. 16 de outubro de 1972.

Por falta de recursos, o prefeito teve que fechar o Matadouro, atrasou salários da educação. Para aumentar a receita, propôs o refinanciamento e perdão de multas e juros aos devedores da administração municipal (1972). Jaime da Paz foi várias vezes a Câmara em busca de apoio político para captar mais recursos para administração. Ele reforçou o caixa da prefeitura, colocando em concorrência pública a venda de grande quantidade de cera de carnaúba pertencente ao poder público. Foram vários leilões. A cera era salvação da lavoura.

A década de 1970 foi um dos melhores períodos econômicos de Campo Maior. Alguns prefeitos souberam aproveitar esse momento de crescimento e aplicar bem os recursos, enquanto outros acabaram se rendendo totalmente a política do clientelismo, gastando volumosas somas de recursos com o empreguismo político que trazia pouco resultado. O poder da oligarquia era muito forte. O clientelismo e a troca de favores comprometiam as gestões na tomada de decisões e na dinamização dos serviços e negócios.

Sem o voto e o apoio dos caciques políticos era praticamente impossível conquistar à prefeitura. A corrupção eleitoral na época era quase escancarada. A justiça não conseguia conter os abusos.  Havia vícios de todos os tipos. As divergências políticas ficavam restritas ao âmbito do poder. Os interesses eram sempre os mesmos: manutenção de privilégios, cargos, recursos e isenções de impostos. A oligarquia campo-maiorense era composta por grandes proprietários de terras, gado e carnaubais. Mas eles também se dedicavam atividade comercial.

Era nesse contexto histórico que estava inserido a gestão de Jaime da Paz.

Grupos mais progressista, formado por profissionais liberais e estudantes tentaram romper com a influência de grupos oligárquicos na política de Campo Maior, mas não conseguiram. O MDB em Campo Maior era uma sigla morta. O partido representava pessoas de pensamento vanguardista. Mas eram estigmatizados, hostilizados. Grupos de esquerda, formado, sobretudo por trabalhadores rurais, oriundos da Liga Camponesa dos Martinhos e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais eram investigados, interrogados e presos pelos censores do regime militar.  Emílio Garrastazu Médici foi o presidente da República mais repressivo da Ditadura.

Jaime não chegou a revolucionário, porém não foi reacionário. Soube empreender medidas modernizantes. Foi um governo burguês com forte conotação popular. Jaime administrou bem os interesses contraditórios entre os aliados que sustentavam a sua gestão. O mandato de Jaime foi tranquilo do ponto de vista político, apesar das acaloradas discussões na Câmara entre membros da situação e oposição. Foi um político sereno, cortejador do diálogo e habilidoso administrador.

FONTE CONSULTADA

DOCUMENTOS

Prefeitura Municipal de Campo Maior. Lei º 19 de 19 de julho de 1971. Concorda com o encanamento pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Ginásio Orientado para o Trabalho Cândido Borges Castelo Branco pertencente ao município.

Edital Nº 05/72 concorrência pública de quatro mil e quinhentos quilos de cera de carnaúba. 06 de fevereiro de 1971.

Prefeitura Municipal de Campo Maior. Edital Nº 13/71 concorrência pública de quatro mil e quinhentos quilos de cera de carnaúba. 19 de março de 1971.

Prefeitura Municipal de Campo Maior. Edital Nº 10/72 concorrência pública de dez mil quilos de cera de carnaúba. 08 de maio de maio de 1972.

Prefeitura Municipal de Campo Maior. Edital Nº 15/72 concorrência pública de dois mil e cinquenta quilos de cera de carnaúba. 02 de junho de 1972.

Prefeitura Municipal de Campo Maior. Edital Nº 52-A/72 concorrência pública de cinco mil quilos de cera de carnaúba. 15 de dezembro de 1972.

Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior. 30 de maio de 1971.

Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior. 02 de julho de 1971.

Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior. 02 de agosto de 1971

Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Maior. 06 de 10 de 1971.

 

LIVROS

CHAVES, Celson. História Política de Campo Maior. Campo Maior-PI, edição do autor: 2013.

CHAVES, Celson. História da Educação Campo-Maiorense: políticas educacionais da Prefeitura de Campo Maior (1945-1975). Campo Maior-PI, edição do autor, 2012.

LIMA, Francisco de Assis de. Campo Maior em Recortes. Campo Maior-PI, edição do autor, 2088

LIMA, Reginaldo Gonçalves. Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia. Campo Maior-PI, edição do autor, 1995.

NETO, José Cunha Neto. Nossa Terra, Nossa Gente. Campo Maior-PI, edição do autor, 1994.

PAZ, Antônio Heldo de Sousa. A Vila de Campo Maior e os Paz: 1838-1960.Teresina-PI, Cancioneiro, 2021.

XIMENES, Moacir. Painel Fotográfico de Ex-prefeitos de Campo Maior. Campo Maior- FCXA. 2007.

 

REVISTAS E JORNAIS

Revista Nossa Gente. Março de 2015, nº19-Ano VII. Honra ao Mérito a professora Mariema Paranaguá da Paz.

Revista Nossa Gente. Fevereiro e Maio 2010, nº03 – Ano I. Jaime & Mariema: da paz ao amor.

Jornal A Luta. 20 de setembro de 1970. Biografia do candidato a prefeito Jaime da Paz.

Jornal A Luta. 06 de fevereiro de 1971. Discurso do vereador Dr. Carlos.

Jornal A Luta. 06 de fevereiro de 1971. Palavras de Jaime ao tomar posse.

Jornal A Luta. 28 de novembro de 1976. Zé Olímpio: a maior vitória dos últimos tempos.