Cientista da USP explica sobre a imunidade de rebanho, “ferramenta” que freia Covid-19

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Na corrida contra a pandemia causada pelo novo coronavírus, muito se fala sobre a importância da imunidade de rebanho e muito se discute sobre qual é a porcentagem dessa imunidade que precisa ser atingida para proteger a população da doença.

Mas o que, de fato, significa esse termo? Segundo Marcelo Urbano Ferreira, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), o conceito da imunidade de rebanho surgiu no contexto da medicina veterinária. “Essencialmente a ideia é: qual a porcentagem de um rebanho que eu preciso vacinar para evitar que uma doença infecciosa seja transmita entre esses animais”.

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Na medicina humana esse mesmo conceito funciona para o planejamento de políticas públicas e já é aplicado em relação às vacinas há muito tempo.

Só que com a chegada da pandemia do Sars-Cov-2, essa imunização não está acontecendo como resultado de uma vacinação, mas sim por uma infecção natural à medida que o vírus se dissemina na população.

E qual é a diferença entre a imunização se estabelecer através de vacinas e este processo acontecer naturalmente?

“É que a infecção natural vai acometendo principalmente no começo os indivíduos com risco maior, que são aqueles que se expõe mais ou que têm alguma característica biológica que os predispõe à infecção. Então não é uma imunização aleatória. É como se o vírus escolhesse de fato um segmento da população de maior risco para infectar nesse primeiro momento”, explica Ferreira.

Reprodutibilidade do vírus

A potência da disseminação de um vírus depende diretamente da reprodução do mesmo. No caso do Sars-Cov-2, que causa a covid-19, cientistas apontam uma reprodutibilidade natural em torno de três.

“Isso significa que a gente precisaria de 70% da população atingida para chegar à imunidade de rebanho. Acontece que como o país fez uma quarentena, hoje em dia em média mais ou menos 45% das pessoas ainda estão protegidas do vírus. Isso significa que esse valor de reprodutibilidade cai pela metade, o que faz com que a gente não precise do 70% de imunidade de rebanho, mas um valor muito mais baixo de 20 a 25% já seria o suficiente se permanecemos fechados em 45%”, cita o médico e físico Eduardo Massad, que é professor da USP e da FGV.

Um estudo recém divulgado realizado com dados de países europeus em que Marcelo Ferreira faz parte também apontou uma possível imunização de 20%.

“O que a gente fez foi ajustar os dados da epidemia natural da Inglaterra, Espanha, Portugal e Bélgica a modelos que consideravam diferentes cenários de variação de risco entre as pessoas. O modelo que melhor se ajustou era um modelo que considerava uma variação de risco que, por sua vez, era compatível com uma imunidade de rebanho sendo adquirida por ai, isso varia um pouco entre países, mas sempre 10 a 20%”, cita.

Com esse número adquirido a pandemia não acaba, mas o que acontece é que ela começa a desacelerar. “Eu acho que a vacina vai chegar antes que a gente atinja essa imunidade de rebanho no Brasil como um todo”, opina o médico Massad.

Por que não desistir da quarentena?

Ora, se a população é capaz de se infectar naturalmente e gerar uma imunização em rebanho, por que não deixar todo mundo viver normalmente sem restrições? A resposta é: por causada grande taxa de mortalidade que isso acarretaria e de um colapso no sistema de saúde.

“Alguns países tentaram deixar a epidemia correr o seu curso natural, como a Inglaterra no começo e a Suécia. Foi um desastre. Se o Brasil tivesse adotado essa estratégia de deixar a imunidade de rebanho chegar por curso natural, nós estaríamos hoje com 1 ou 2 milhões de mortos. Ou seja, é um preço muito caro. De fato, a gente já estaria livre da pandemia, porque a curva é muito alta, ela sobe e cai rapidamente. Mas, há um custo de 1 ou 2 milhões de óbitos, coisa que é absolutamente inaceitável para o Brasil, para lugar nenhum”, diz Massad.

Enquanto não há uma vacina e enquanto a imunização de rebanho ainda não atingiu cerca de 20% da população é preciso manter as medidas de segurança.

Fonte: G1



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