PREFEITO JOSÉ OLÍMPIO DA PAZ por Celson Chaves

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A família Paz surge no cenário político de Campo Maior na época do Império, na fase do segundo reinado (1840-1889). Foram quatro os membros do clã que se revezavam na composição da Câmara, órgão máximo do governo municipal, seja na condição de suplente ou titular. Gregório José da Paz e Mariano José Paz tiveram maior atuação política por conta do tempo em que estiveram na Câmara, na antiga Guarda Nacional e outros cargos públicos na vila de Campo Maior.

São 155 anos de atuação política. Nesse longo período, a família Paz passou bom tempo no ostracismo. Da proclamação República (1889) até o final da primeira metade do século XX. Quase excluída das decisões políticas, a família Paz passou despercebida pela vida pública. O clã chegou apresentar alguns nomes durante esse tempo, contudo sem expressividade. A família volta ao cenário político com toda força e carisma, na segunda metade do século XX, na figura de José Olímpio da Paz.

Ao longo de 155 anos, a família projetou na vida pública: 9 vereadores, 2 vice-prefeitos; 2 prefeitos e 1 deputado estadual. Até hoje, José Olímpio da Paz é considerado o maior nome da família na política do Piauí. Foi prefeito por dois mandatos e eleito uma vez deputado estadual.

 

José Olímpio da Paz.
Foto do livro Painel Fotográfico dos Ex-prefeitos de Campo Maior de autoria do historiador, professor e advogado Moacir Ximenes.

 

O principal tronco dessa linhagem é Joaquim José da Paz e Maria Floresta Brasileira [da Paz].  Em linhas gerais, os dois filhos de Joaquim da Paz: Severo Pedro Paz e Gregório José da Paz dividiram o clã em duas ramificações, subdividindo-as posteriormente em estirpes menores.

Da linhagem de Severo Pedro, descarta-se a descendência de Luís Augusto da Paz e Maria Olinda do Monte [Paz]. Dos seis filhos do casal, três se envolveram na política. São eles: Severo Augusto da Paz, José Olímpio da Paz e Antônio Augusto da Paz. Os dois primeiros foram políticos natos, mas não deixaram herdeiros. O terceiro, apesar de estar ligado a atividade pública não era um político de fato. Antônio Augusto da Paz teve uma vida voltada para o comércio, de sua linhagem brolhou a mais fecunda geração de políticos da família atualmente.

O crescimento político dos descendentes da linhagem de Antônio e Carminda Paz em Campo Maior deu-se da aliança com a família Bona. Eles fizeram parcerias exitosas, ao compor chapas majoritárias vitoriosas nas últimas décadas do século XX. A primeira foi com Raimundo Nonato Bona –O Carbureto- (Partido Democrático Trabalhista – PDT) e Carlos Augusto da Paz (PDT) no pleito eleitoral de 1988. A segunda, com Marco Aurélio Bona (PDT) e Anísio Augusto da Paz (Partido do Movimento Democrático Brasileiro – PMDB), na eleição de 1992. Na campanha eleitoral de 1982, a família saiu dividida, ao emplacar a candidatura de vice-prefeito com José Luiz Augusto Paz (PMDB) na chapa de José Felipe de Oliveira (PMDB), e a de Carlos Paz (Partido Democrático Socialista – PDS) a prefeito, porém não tiveram sucesso.

A linhagem dos Augustos da Paz tem forte presença na gestão pública de Campo Maior, ao ocupar cargos estratégicos (secretários) da administração municipal desde a década de 1990, período em que a família Bona foi hegemônica na política local; e no século XXI, com a chegada da esquerda ao poder nas gestões recentes do Partido dos Trabalhadores (PT) – Paulo Martins e professor Ribinha.

Dos membros da procedência dos “Butinas”, destaca-se a figura proeminente de Jaime da Paz. Os “Butinas” não tiveram a expressividade política como a linhagem de Severo Pedro. “Butina” foi um apelido jocoso atribuído ao senhor Mariano José da Paz pelo fato de usar rotineiramente longas botas de couro na época em que prestava serviço à polícia militar do Piauí. Assim reza a lenda.

José Olímpio da Paz, o popular “Zé Olímpio”, é um dos ex-prefeitos mais reverenciados na memória e na história de Campo Maior. Sua fama povoa o imaginário da população ao “ter deixado os ricos menos poderosos e os pobres menos sofredores”. Até que ponto a máxima de político caridoso é verdade? O que realmente se esconde por trás desse discurso ideológico?  Vamos tentar, em poucas laudas, responder esta e outras indagações sobre a gestão e a vida política de Zé Olímpio.

José Olímpio da Paz é o único ex-prefeito a ser homenageado com um busto na praça da prefeitura. Ele também é reverenciado com nome de praça e colégio em Campo Maior. É um dos políticos mais lembrados na história de Campo Maior. Muitos escritores o mencionam em livros pela relevância social prestado a cidade e as instituições (religiosa, sindical e filantrópica) no qual participava como membro ou simpatizante.

 

Descrever a vida de personalidades que marcaram uma geração nunca é consenso, nem em sua época e nem agora. Um mesmo fato histórico pode apresentar versões diferentes. O poeta José Cunha Neto traçou no cordel A vida e morte de José Olímpio da Paz (1977) a figura de um governante justo e caridoso. Ao contrário do poeta, o historiador Reginaldo Gonçalves Lima ver na imagem bondosa de Zé Olímpio, certa dose de ingenuidade. Segundo Reginaldo Lima, muitos se aproveitaram da “bondade” do prefeito para tirar proveito do governo, lapidando o patrimônio público em benefício próprio. Muitos ficaram ricos a custa do governo.

Um estudo sobre o governo de José Olímpio da Paz se faz necessário para que a razão pondere as paixões e venha a revelar a verdadeira figura de um homem demasiadamente humano. Isso só acontece à luz da história.

Natural de Campo Maior, José Olímpio da Paz administrou o município em duas oportunidades: 31/01/1959 a 31/01/1963; 01/02/1977 a 31/01/1977. Cumpriu todo o primeiro mandato. Na segunda gestão, faleceu com dois meses de atuação.  Um dos aspectos caracterizadores do governo de Zé Olímpio foi o descontrole administrativo. O abatimento e o perdão de impostos, taxas e outros tributos concedidos a pessoas físicas e jurídicas, a fazendeiros, industriais da cera da carnaúba inviabilizou a capacidade de investimento da prefeitura.

O setor elétrico e o saneamento básico demandavam um volume considerado de recursos, mesmo com ajuda financeira dos governos estadual e federal não eram suficientes. A prefeitura utilizava-se dos impostos municipais para tocar uma série de obras e serviços tão necessários para o desenvolvimento da época. Mesmo com descontrole e mal gasto dos recursos públicos, José Olímpio da Paz, deixou mais de 200 mil cruzeiros no cofre da prefeitura.

Mesmo com perdas tributarias, o município conseguiu arrecadar vultosas somas, graças ao bom momento econômico assentado no extrativismo da cera de carnaúba e pecuária. A falta de pulso do prefeito, a quebra de hierarquia administrativa, os desvios de bens da prefeitura para propriedades particulares e muitos funcionários recebendo sem trabalhar, sobretudo no setor da educação, prejudicavam a gestão.

O símbolo maior do descaso do governo de José Olímpio da Paz deu-se na aprovação de uma polêmica lei que concedeu perdão de 30% do total das dívidas de cada rendeiro inadimplente com o pagamento da cera extraída dos carnaubais da prefeitura. A benevolência e a falta de pulso de Zé Olímpio, com os devedores da fazenda pública, aumentava o número de inadimplentes. A dívida crescia a cada ano da sua gestão.

Vereadores ligados ao setor de exploração, produção e venda da cera de carnaúba ajudavam na aprovação de leis que afrouxava a rédea fiscal na cobrança de dívidas ativas. O vereador Alípio Ibiapina foi um deles. A falta de pulso do prefeito aumentava a ousadia e investida de fazendeiros, grileiros e posseiros para retomar os carnaubais da prefeitura.  José Olímpio da Paz aceitou a pressão política e colocou a venda parte dos carnaubais do município. O poder público perdeu sua maior fonte de renda.

A principal fonte de arrecadação era o imposto proveniente da cera de carnaubal. As taxas de energia elétrica e água não eram cobradas. A prorrogação no pagamento da cera prejudicava investimentos, aumentava a inadimplência fiscal e interrompia serviços essenciais como a limpeza de ruas, praças e avenidas. A cidade era imunda, cheia de lixos e entulhos.

Inúmeros eram os atos maléficos ao patrimônio público. O prefeito não tinha força para reverter à situação. Pessoas se apropriavam dos bens públicos sem nenhum pudor. A geladeira da prefeitura (artigo de luxo para época) encontrava-se na residência do assessor jurídico da prefeitura, o advogado Dr. Joaquim Antônio Oliveira; o caminhão estava emprestado para serviços particulares; houve extravio de cimentos, janelas e portas do depósito da prefeitura, doação de terrenos urbanos sem critério técnico. Os desmandos administrativos eram muitos. Usavam o caminhão da prefeitura até para transportar as raparigas da rua Santo Antônio para festas nos principais povoados.

A morosidade no cumprimento de leis aprovadas na Câmara Municipal para conter a sangria financeira, sobretudo o não pagamento e atrasos de dívidas relacionadas à cera de carnaúba enfraqueciam politicamente o governo. Os funcionários relaxavam em suas obrigações. O descuido com a coisa pública era gritante. Chegaram a comprar equipamentos velhos como se fossem novos (motores para Usina Elétrica) para a manutenção e expansão da rede elétrica. O prefeito não inspirava segurança. Ele não conseguia conter a voracidade dos aliados por cargos e recursos públicos.  Fazia vista grossa para os desmandos. Estava refém de chantagistas e saqueadores do dinheiro público.

Diante de tantas irregularidades e da falta de controle administrativo, o vereador José Olímpio Castro de Oliveiro chegou apresentar no plenário da Câmara Municipal o impeachment de José Olímpio da Paz.

Nos dois últimos anos de mandato, José Olímpio de Paz teve dificuldade para aprovar leis que concedia créditos suplementares e especiais para pagamentos de despesas extras. Houve também uma maior fiscalização nas prestações de conta do prefeito e um controle nos gastos públicos. Alguns balancetes administrativos foram rejeitados.

 

Caricatura de José Olímpio da Paz. Autor: João de Deus Neto. Fonte: Blog Bitorocara News

No sentido de por freios no descontrole financeiro, a Câmara Municipal resolve tomar medidas drásticas contra a enxurrada de pedidos de concessão de créditos especiais, ao determinar que “todas as despesas relativas a serviços contratados, subvenções, gratificações, empreitadas sem concorrência pública, constante desta mensagem ou não, serão aprovadas por esta Câmara até o corrente mês de outubro. Por diante é vetado ao prefeito municipal proceder qualquer destas despesas sem prévia autorização da Câmara” (ata da sessão ordinária da Câmara Municipal 09/10/1961).

José Olímpio da Paz vetou o projeto de lei que limitava o seu poder de concessão, auxílios, subvenções e contribuições financeiras. Segundo o parlamentar José Olímpio Castro de Oliveira, a referida proposição “não visava acabar com auxílios ou subvenções, mas apenas regulá-los e moralizá-los, a fim de evitar o esbanjamento de dinheiro” (ata da sessão ordinária 04/04/1962).

José Olímpio da Paz enfrentou forte oposição na Câmara Municipal. O professor e ex-secretário de educação José Olímpio Castro de Oliveira foi o principal vereador de oposição. O mais carrasco dos vereadores. As críticas desferidas por Olímpio Castro contra o governo, unas tinham fundamentos, outras nem tanto. Ele, às vezes, exagerava.  Atribuía coisas que não era da competência do prefeito. Pouco soube reconhecer os acertos do governo. Foi implacável nos pronunciamentos. Em certo momento, as cobranças eram injustas.

Com as críticas, José Olímpio Castro de Oliveira, aos poucos, construiu uma imagem negativa de José Olímpio da Paz perante a opinião pública.  A figura de prefeito fraco pegou e ecoou por toda cidade na voz estridente e eloquente do professor Olímpio Castro. O vereador tachava o prefeito de “homem de duas consciências”, diga-se “duas caras”. Por trás da figura de “bom moço”, do cidadão “caridoso”, segundo os vereadores de oposição, escondia-se um “demagogo”. A postura de José Olímpio da Paz de agradar aliados acabava prejudicando o interesse público.

O tom depreciativo com que o vereador Olímpio Castro se referia ao prefeito acabava ganhando outras tonalidades em discursos inflamados – “um incapaz”, “um inoperante” que procurava “mistificar o povo com mentiras”. José Olímpio Castro de Oliveira era um intelectual, um estudioso da língua e da cultura, sabia jogar com as palavras certas para atingir o alvo. Vereador de ideologias, seu posicionamento firme na Câmara refletia a postura do educador apaixonado pela causa pública.

A missão de José Olímpio Castro de Oliveira era desmontar a imagem de “pai dos pobres” construída por José Olímpio da Paz à custa do governo. O vereador Olímpio Castro segue até o final da legislatura numa onda de ataque contra a gestão de Zé Olímpio.

Outro fato interessante que merece nossa atenção, que de certo modo constrangeu o governo foi à questão envolvendo intolerância religiosa. José Olímpio da Paz vetou o projeto de Lei Nº 10/1960 que tornava de utilidade pública o Centro Espirita Caridade e Fé. A Câmara Municipal manteve o veto do prefeito. Zé Olímpio atrasou de propósito o processo de reconhecimento pelo poder público do Centro Espirita. O prefeito usou a bancada do governo na Câmara para barrar qualquer discussão e votação ao referido projeto.

Os vereadores aliados ao prefeito, Alípio Ibiapina e Antonio Pedro Sobrinho chegaram a pedi vista do projeto, em diferentes sessões, como manobra política para demorar a discursão de tornar o Centro Espírita uma entidade de utilidade pública. Mesmo com tantos empecilhos e prorrogações o projeto chegou a ser votado, houve empate, o presidente da Câmara acompanhou a orientação do prefeito votando contra o projeto de lei. A proposição foi votada em primeira e segunda discussão, sendo derrotado nos dois momentos, pela força do governo na Câmara.

O Centro Espírita Caridade e Fé, fundado em 1957, prestava e ainda presta relevantes serviços a sociedade campo-maiorense. A instituição mantinha uma escola primaria. A questão do Centro Espírita não foi um fato isolado. José Olímpio da Paz envolveu-se em outra situação um tanto delicada. Como associado do Centro Operário Campo-Maiorense liderou um movimento dentro do sindicato para impedir a presença e a influência de protestantes junto à diretoria do Centro. Ele propôs uma petição acompanhada de uma lista de assinaturas que conseguiu levantar junto aos membros do C.O.C. para reivindicar a devolução do dinheiro doado pelo sindicato para a construção do templo da Igreja Assembleia de Deus. O episódio gerou uma série de constrangimentos entre os membros do Centro, a ponto do representante da Igreja Evangélica junto ao sindicato devolver o dinheiro para Centro.

A história registra ainda outros casos de intolerância religiosa em Campo Maior. Segundo o historiador Marcus Paixão houve um principio de perseguição religiosa por parte do padre Clarindo Lopes Ribeiro da paróquia de Santo Antonio contra o primeiro campo-maiorense convertido ao protestantismo Joaquim da Costa Araújo (Joaquim Bostoque).  Isso por volta da década de 1910. Joaquim Bostoque pertencia a denominação Batista.

Outras perseguições ocorrem em Campo Maior posteriores à morte de Joaquim Bostoque. O alvo da vez foram os membros da Igreja Assembleia de Deus. Era década de 1930, segundo o historiador Marcus Paixão, as ideias e os cultos protestantes começavam a ganhar visibilidade na cidade. Na década de 1940, o padre Mateus Cortez Rufino também perseguiu membros da Igreja Batista.

O historiador maçom João Alves Filho relata em seu livro Mateus Rumo ao Céu (1994) o desentendimento entre o padre Mateus Cortez Rufino e os membros da Loja Maçônica Costa Araújo Nº 03, no final da década de 1940.  As desavenças ocorreram por conta da instalação da Maçonaria em Campo Maior. Em 2014, houve uma nova contenda envolvendo a Maçonaria e Igreja Católica no município, os protagonistas desta vez foram o historiador João Alves Filho e o bispo Dom Eduardo Zielsky.

Quando prefeito, José Olímpio da Paz deu ampla assistência financeira a Igreja Católica. Distribuiu verbas vultosas para as ordens religiosas que prestavam assistência social.  Concedeu 10.000,00 cruzeiros para a realização do 1º Congresso Eucarístico Piauiense. Investiu Cr$ 1. 500.000,00 na reforma da Usina e melhorou a rede de energia elétrica. Viabilizou ao custo de Cr$ 150.000.00 para a instalação da Companhia Telefônica de Campo Maior, responsável por administrar os terminais telefônicos pertencentes à prefeitura. Reformou o Cineteatro Glória (Cr$ 400.000,00). Estabeleceu normas rígidas para o arrendamento dos carnaubais do município, tendo em vista a grande inadimplência.

Por outro lado, pressionado tentou criar leis que beneficiava os maus pagadores de imposto da cera de carnaúba, concedendo descontos generosos no total dos débitos correntes, prejuízo para o cofre público. Mesmo assim, as dívidas continuavam altas. Concedeu ajuda de Cr$ 25.000,00 para Sociedade de Proteção a Maternidade e a Infância, instituição mantenedora da Maternidade Sigefredo Pacheco. Calçou a Avenida Demerval Lobão (1961). Promoveu uma política sanitária, ao implantar e melhorar o funcionamento da rede de água e esgoto da cidade.

Criado na gestão de Oscar Castelo Branco Filho, o Sistema Autônomo de Água e Esgoto teve sua parte operacional funcionado no governo de Zé Olímpio. Em sua administração foi firmado mais um convênio com Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) para administração do SAAE, e com o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) para instalar a primeira rede submersa de canos, a construção da caixa da água e a perfuração de poços.

José Olímpio da Paz e o Senador Sigefredo Pacheco disputavam entre si o mérito pela viabilização da importante obra estruturante. O mérito era dos dois. O primeiro por ser prefeito e responsável por costurar acordos institucionais entre o governo municipal e o federal na aquisição de equipamentos e na construção da rede de água e esgoto. O Segundo, por ser deputado federal, foi importante mediador nas negociações entre a prefeitura e os órgãos competentes da União (SESP/DNOCS) para execução de obras e aquisição de equipamentos para o SAAE.

Criou escolas primárias na zona rural. Instituiu o Ginásio Municipal. Regularizou e organizou cursos e férias para o aperfeiçoamento pedagógico das professoras leigas. Concedeu auxílio financeiro ao Ginásio Santo Antônio. Deu bolsas de estudos no valor de Cr$ 107.000,00 para alunos ingressar no Ginásio Santo Antônio. Doou terreno ao governo do Estado para a construção do Ginásio Industrial Cândido Borges Castelo Branco (Colégio CEPIT).

José Olímpio da Paz implantou o populismo em Campo Maior. Ao contrário dos prefeitos da época, ele buscou uma relação pessoal e direta com o povo através da distribuição de benefícios sociais pagos pelo governo. Zé Olímpio montou uma rede de distribuição de alimentos, medicamentos, dinheiros, empregos, prestação de serviços e dispensas de taxas de cartório aos pobres como fosse “doação” o que é vício. Surge a figura política em Campo Maior do “pai dos pobres”.

A política do clientelismo e do empreguismo que encabresta o eleitor era vista como algo positivo para a população analfabeta e carente. “O pai dos pobres” também não descuidou de atender os interesses dos ricos, ao conceder abatimento e cancelamentos de impostos. O populismo político disfarçava a face oligárquica do governo.

Por conta das “doações” aos necessitados, Zé Olímpio caiu nas graças do povo, tornando-se em pouco tempo uma liderança populista e carismática. A população recorria a ele em busca de todo tipo de favor e ajuda. Onde estivesse e fosse visto era sempre interpelado por um pedido. Com a força do populismo, ele consegue aumentar seu capital eleitoral, elegendo-se deputado estadual ainda no mandato de prefeito (1961).  Zé Olímpio foi além do assistencialismo básico, buscou uma relação próxima com o eleitor, ao torna-se padrinho de inúmeras crianças pobres.

Tornou-se o político com maior número de afilhados. Segundo o historiador João Alves Filho, Zé Olímpio ao longo da vida teve “aproximadamente três mil afilhados”. O fato de escolhê-lo como padrinho deve-se não apenas por sua generosidade ou carisma; ser afilhado de político poderia render um emprego, ajuda nos estudos ou indicação para conseguir vaga no comércio.

Com sagacidade, José Olímpio da Paz aproveitou bem o momento político que vivia. Espelhava-se nas grandes personalidades populistas do Brasil de sua época (Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Jango, Juscelino Kubitschek…) para manter-se no poder; enquanto os tradicionais políticos campo-maiorenses continuavam no habitual jogo de alianças entre famílias poderosas e grupos de fazendeiros para conquistar eleições. Zé Olímpio preferiu a relação direta, emocional e paternal com o eleitorado pobre sem esquecer-se dos ricos. Foi o “pai dos pobres” e a “mãe dos ricos”.

Ao mudar o estilo de fazer política em Campo Maior, José Olímpio da Paz, em pouco tempo, desbancou as duas velhas raposas da política local: Francisco Alves Cavalcante e Sigefredo Pacheco. O grande feito rendeu-lhe fama, garantiu o prestígio necessário para torná-lo bem sucedido na terra dos carnaubais, na segunda metade do século XX. Passou a ser uma referência e uma influência para novas lideranças. Raimundo Nonato Bona “o carbureto” foi um deles. Carbureto deu continuidade ao populismo de José Olímpio da Paz.

Assim como Getúlio Vargas, José Olímpio da Paz fazia questão de passar a imagem de protetor dos pobres, dos “sofredores”, dos “descamisados”, dos “despossuídos”, de homem caridoso. Ao contrário de Getúlio Vargas, José Olímpio da Paz não criou nenhum “Departamento de Imprensa e Propaganda” (DIP) para cuidar da sua imagem, ele mesmo fazia de modo pessoal numa cadência natural. No homem de corpo franzino escondia-se a força, a esperteza e a serenidade de um político que não se prestava a vaidades. Igualmente a Getúlio Vargas, nunca ambicionou a riqueza pessoal.

A morte de José Olímpio da Paz no exercício do mandato casou forte comoção social. A cidade parou para homenagear seu líder. Enquanto os noticiários alardeava a grande perda do líder, a literatura (diga-se o cordel) cuidava de perpetuar a memória e os feitos dele no imaginário popular. José Cunha Neto escreveu um folheto sobre a vida e a morte de José Olímpio da Paz relembrando suas as ações e virtudes humanitárias.

Era filho de pais pobres

E chegou a tabelião

Exerceu por 37 anos

Ajudando o seu torrão

E mais de dois mil afilhados

Ele tinha no sertão

(Vida e Morte do prefeito Olímpio da Paz, 1977).

 

Um, foi José Olímpio

Um político de valor

Foi prefeito desta terra

E gostava do sofredor

(Homenagem ao casal Antonio da Paz e Carminda, 1993).

 

A literatura campo-maiorense contribuiu muito para a construção do mito político de Zé Olímpio. Consolidou discursos propagandeados pelo imaginário popular. No cordel Vida e Morte do prefeito José Olímpio da Paz (1977), Cunha Neto explora metaforicamente a imagem paternalista do biografado, ao reproduzir o discurso do político sem malícia e humanista, desprovido de qualquer vaidade ou ambição desmedida pelo poder.

Marcus Teodorico Vasconcelos, primeiro ocupante da cadeira nº 27 da Academia Campo-Maiorense de Artes e Letras do qual José Olímpio da Paz é Patrono, possui o texto mais apologético sobre o político. Nele o autor descreve a forma de Zé Olímpio se relacionar com ricos e pobres: “Não cobrava as taxas cartoriais referentes a registros de nascimento e nem casamento de filhos de pessoas humildes para serem seus afilhados, advindo daí uma estatística de mais de 3.000 afilhados. Também só cobrava de pessoas de posses [ricos] metade do custo dos documentos (Revista da Academia Campo-Maiorense de Artes e Letras, 2013)”.

Cordel biográfico de José Olímpio da Paz. Autor José Cunha Neto

O político de origem pobre, sensível ao sofrimento alheio, solidário nas horas difíceis, socorria a todos que se chegava a ele, tem a imagem difundida por todo município e região norte do Piauí. O mito político começa a ser construído a partir da força midiática do cordel, dos repentistas e contadores de violas, da velha e da propaganda de “boca a boca” e de correligionários apaixonados. O populismo de Zé Olímpio contribui fortemente para a nefasta cultura eleitoral de pessoas amanhecerem nas calçadas das residências dos candidatos em busca de favores.

O cordel de Cunha Neto difundiu entre a população sertaneja a imagem de Zé Olímpio como político do povo. O jornal A Luta também replicou essa opinião quando surgiu a ideia de se implantar um busto de José Olímpio da Paz na praça da prefeitura. O cordel de José Cunha Neto divulga a figura do bom líder, ocultando às malícias e as contradições inerentes à natureza dos homens de poder.

A década de 1960 intensificou-se a luta da classe trabalhadora, principalmente da zona rural, por garantias sociais e melhores condições de vida. O homem do campo vivia na completa pobreza. A lavoura de subsistência era o principal meio de vida. As condições no campo eram precárias. O trabalhador morava em casebre, alimentava-se mal, não tinha acesso à saúde e educação pública; viviam na completa ignorância. A vida era dura. As Leis Trabalhistas, os direitos sociais garantidos na Era Vargas não eram respeitados pela maioria dos empresários e fazendeiros.

A modernização de Campo Maior na década de 1960 e 1970 oportunizou a classe trabalhadora um maior acesso aos bens de consumo, principalmente eletrodomésticos. O rádio a pilha chegava às casas da zona rural. Através do rádio, o homem do campo passou a ter notícia de um Brasil urbano e industrializado.

Três instituições atuaram junto à classe operária e trabalhadores rurais em Campo Maior. Primeiro a Arquidiocese de Teresina, na pessoa do arcebispo Dom Avelar Brandão. Para o professor Joaquim Cantuário, autor do livro Trajetória dos Movimentos Sociais de Campo Maior, a Igreja Católica combatia o avanço das ideias socialistas junto à classe trabalhadora. Para isso, o arcebispo de Teresina, Dom Avelar montou uma série de estratégias visando garantir os direitos dos trabalhadores.  Dom Avelar Brandão, norteado pela bula papal Rerum Novarum (15/05/1891) escrita pelo papa Leão XIII, apoiava a luta dos operários de formarem sindicatos e dos trabalhadores rurais fazerem à reforma agrária, desde que respeitasse o direito a propriedade privada, as leis do mercado e rejeitasse o socialismo.  Para Joaquim Cantuário, os poucos benefícios do governo de Zé Olímpio não chegavam à zona rural, principalmente a educação.

A Arquidiocese de Teresina implantou em Campo Maior o Movimento de Educação de Base (MEB), primeira experiência de instrução à distância através do ensino radiofônico transmitido pela emissora da arquidiocese. A partir do MEB o trabalhador rural passou a receber ensino e a verdadeira noção de direitos e justiça social. Para contrapor a visão apaziguante, conciliadora da Igreja Católica, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Liga Camponesa, entidades de víeis socialistas defendiam urgência na reforma agrária. A ideia de Revolução não estava descartada. Assustados com a crescente influência do Sindicato Rural e da Liga Camponesa, fazendeiros espalhavam fake News entre os camponeses sobre o regime socialista. Os latifundiários temiam perder privilégios e terras.

Nesse contexto, o prefeito, José Olímpio da Paz se colocava como um mediador. Aproximou-se da classe trabalhadora, dos pobres auxiliando-os no que precisava. Agradava o povo e a elite num delicado jogo de poder. A República Populista no Brasil (1946-1964) foi marcada por tensões políticas e pela política desenvolvimentista.

Uma era de transição estava se desenhando timidamente. A política engendrada por José Olímpio da Paz não seria ignorada. Na visão do professor Joaquim Cantuário era “conservador e reacionária”.  Os novos atores da cena política nas décadas de 1970 e 1980 preparariam ações governamentais mais sintonizadas as demandas sociais e não apenas ao clientelismo vigente.

FONTE CONSULTADA

CANTUÁRIO, Joaquim Luiz. Trajetória dos Movimentos Sociais de Campo Maior: avanços e retrocesso. Campo Maior -PI, edição do autor, 2015.

CHAVES, Celson. História Política de Campo Maior. Campo Maior-PI, edição do autor: 2013.

CHAVES, Celson. História da Educação Campo-Maiorense: políticas educacionais da Prefeitura de Campo Maior (1945-1975). Campo Maior, edição do autor. 2012.

FILHO, João Alves. Mateus Rumo ao Céu. Teresina-PI: Gráfica Mendes, 1994.

LIMA, Francisco de Assis. Campo Maior em Recortes. Campo Maior-PI: edição do autor, 2008.

LIMA, Reginaldo Gonçalves. Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia. Campo Maior-PI, edição do autor, 1995.

PAIXÃO, Marcus Vinicius Costa. História dos Batistas: uma história de Campo Maior. Campo Maior-PI; Reino Publicações, 2010.

SOUSA, Antonio Damião de. O Homem e a terra: ditadura militar e latifundiários contra os camponeses. Campo Maior-PI, edição do autor, 2015.

Revista Nossa Gente. Entrevista com João Alves – “D. Eduardo é um pastor na contramão”. Dezembro de 2014 -Nº 18 /Ano VI.

 

 



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celsonchaves

Professor e Historiador. Especialista em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio. Autor dos livros: Rua Santo Antonio: a prostituição feminina em Campo Maior (1940-1975); Câmara Municipal de Campo Maior: 256 anos de história.

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