EDUCAÇÃO CAMPO-MAIORENSE DO PERÍODO COLONIAL por Celson Chaves

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BREVES ANOTAÇÕES SOBRE A EDUCAÇÃO CAMPO-MAIORENSE DO PERÍODO COLONIAL

O Piauí com sua estrutura socioeconômica alicerçada na pecuária extensiva, na baixa densidade populacional, nas péssimas condições das estradas, caminhos construídos naturalmente pelas boiadas e as grandes distâncias entre as fazendas contribuíam para o isolamento geográfico, a deficiência na comunicação e no acanhamento do comércio no período colonial e Imperial.

Foi nesse cenário que a educação oficial se projetou. Primeiramente ela surgiu da iniciativa particular de sacerdotes, depois do Estado. Nesse sentido, nasceram as primeiras escolas do Piauí: a do Padre Marcos de Araújo Costa (Jaicós), do Padre Joaquim Damasceno Rodrigues (Jaicós), Padre Sebastião Ribeiro Lima (São Raimundo Nonato), Padre Francisco Domingos de Freitas e Silva (Piripiri) e a do Dr. João Cândido de Deus e Silva (Parnaíba).

A educação formal era pouco atrativa, pois a atividade econômica do Piauí estava centrada no campo, ou seja, na lida do gado e na lavoura de subsistência. Por essa razão, fazendeiros, vaqueiros e lavradores recorriam mais ao saber prático do que propriamente ao saber teórico focado na cultura e na formação de pessoas para o desprestigiado serviço público.

O mundo letrado no Piauí estava restrito a padres eruditos, bacharéis e burocratas de governo. Não existia escola. A educação era doméstica. Filhos de fazendeiro recebiam as primeiras noções de leitura, escrita e contar no alpendre dos casarões rurais.  A educação elementar era o máximo de instrução que se conseguia no Piauí. O acesso à educação era restrito. Destinado a poucos privilegiados.

O Estado estabeleceu as bases da educação no Piauí com o decreto de 4 de setembro de 1815 criando as três Cadeiras de Primeiras Letras situadas na capital Oeiras e nas vilas de Parnaíba e  Campo Maior. O cargo de professor em Campo Maior foi preenchido somente em 31 de julho de 1816 por Luís Fernando Burgos, o advogado. O ordenado dispendido ao magistério ficou estabelecido em 120$000 mil-réis anuais para o de Oeiras e 60$00 mil-réis anuais para os de Parnaíba e Campo Maior. Salário muito baixo. Mal dava para cobrir as despesas com alimentação. O historiador Pereira Costa apresenta o custo dos gêneros alimentícios comercializados no Piauí em 1822: “carne, libra, 35 réis, arroz 80; toucinho 160; bolacha 480; açúcar 320; farinha, quarta 320; sal 1$920; milho 320, e feijão 480; vinagre, frasco, 640; azeite 640; vinho 960 e leite 80”.

O salário do professor era pago em quatros vezes (uma parcela por quadrimestre): 40$00 para o de Oeiras e 20$00 mil-réis para os de Parnaíba e Campo Maior. De 1816 a 1855 o valor pago ao educador (a) progrediu timidamente. Saiu de 20$000 mil-réis para 35$000 mil-réis por quadrimestre.

As condições de trabalho, os baixos salários (muitos em atraso) tornava o magistério pouco atrativo. Havia dificuldade para preencher as poucas vagas do magistério campo-maiorense. A Câmara Municipal bancava despesa apenas com duas turmas: a do sexo feminino e do sexo masculino. Os distritos mais povoados da vila de Campo Maior, também estabeleceram turmas de ensino, mais por iniciativa dos padres que comandavam as capelas nesses distritos do que propriamente a Câmara Municipal. Caso de Barras e Humildes (Alto Longá), e posteriormente Estanhado (União) e Livramento (José de Freitas). Uma vaga para professor do sexo masculino e outra feminino.

Mesmo diante das inúmeras dificuldades para prover o ensino de primeiras letras no Piauí Colonial, a sede da vila de Campo Maior era privilegiada, pois as cadeiras de primeiras letras e latim estavam preenchidas por professores, ainda que carente de mestres qualificados para exercício do cargo.

Entre 1815-1820, ocuparam as cadeiras de primeiras letras para o sexo masculino em Campo Maior os professores: Luís Fernando Burgos e Luís Antônio de Sagra Chaves. Nas décadas de 1830-1840, tivemos: José Alves Barbosa e Justino da Silva Pacheco. O ensino de primeiras letras compreendia a leitura, escrita, operações básicas de matemática, gramática e princípios de moral cristã. Tudo muito raso.

Na segunda metade do século XIX, apresentamos os seguintes nomes do magistério campo-maiorense: o fotógrafo Coriolano Deodílio Prates e Francisco Nunes de Sousa Júnior (1860-1870); José Fernando Alves (1888); alferes e músico Raimundo Antônio Luís da Paz (1890); e Dirceu Brasilino de Albuquerque Rosa (1899-1900).

A cadeira de primeiras letras para o sexo feminino foi exercida pela Dona Maria Ferreira do Nascimento; Feliciana Florinda da Silva (década de 1860); Henriqueta Vianna de Noronha Moura (1881-1885) e Bárbara Rosa de Jesus (1886-1890). Algumas fazendas tinham seus professores particulares: Manoel Gomes da Silva (1890 – fazenda Santa Quitéria) e Moisés da Matta Oliveira (1890-fazenda Conceição).

FONTE CONSULTADA

ALENCASTRE, José Martins Pereira de. Memória Cronológica, histórica e corográfica da província do Piauí. Teresina-PI: SEDUC, 2005.

CHAVES, Joaquim Raimundo Ferreira. Obra Completa. Teresina-PI: Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, 2013.

COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Cronologia histórica do Estado do Piauí. Teresina-PI: Academia Piauiense de Letras, 2015. Coleção Centenário, 3 ed. V. 1.

_____________________________. Cronologia histórica do Estado do Piauí. Teresina-PI: Academia Piauiense de Letras, 2015. Coleção Centenário, 3ed. V.2.

FERRO, Maria do Amparo Borges. Educação e sociedade no Piauí Republicano. Teresina, 1996.

SOUSA NETO, Marcelo de. Entre Vaqueiro e fidalgos; sociedade, política e educação no Piauí (1820-1850). Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2013.

QUEIROZ, Teresinha de Jesus Mesquita. Os literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as tiranias do tempo. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

 

 

 

 



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celsonchaves

Professor e Historiador. Especialista em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio. Autor dos livros: Rua Santo Antonio: a prostituição feminina em Campo Maior (1940-1975); Câmara Municipal de Campo Maior: 256 anos de história.

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