PREFEITO CEZAR RIBEIRO MELO por Celson Chaves




“Eu não fui um grande prefeito, o melhor de todos. Nunca desejei ser o melhor, mas também não aceito ser o pior”. Cezar Melo.

 

Cezar Ribeiro Melo chegou à prefeitura de Campo Maior depois de uma trajetória bem sucedida no Legislativo Piauiense. Sua jornada política começa no final da década de 1970. Um mandato de deputado estadual lhe garantiu maturidade para disputar pela primeira vez o executivo municipal. Ele não apenas venceu a eleição de 1982, com bastante tranquilidade, como ainda conseguiu eleger o irmão Maurício Ribeiro Melo a deputado estadual; tudo no mesmo pleito. Com o apoio de Cezar, Maurício venceria mais uma campanha de deputado (1986) e uma como vice-prefeito do Dr. Antônio Lustosa Machado. A irmã, Margarida Bona, foi eleita deputada estadual em 1998. O pai, vereador em 1948; vice-prefeito, em 1968. Cezar chegou ainda a disputar mandato de deputado federal, em 2002, mas não obteve sucesso.

O jovem médico era um fenômeno eleitoral. Cezar venceu com folga a eleição de 1982. Conseguiu desbancar o candidato do prefeito Joaquim Mamede Lima, o então secretário de saúde Dr. Carlos Augusto da Paz.  Concorreram no mesmo pleito, o irmão do Dr. Carlos, José Luiz Paz, na condição de vice na chapa de José Felipe de Oliveira, vereador, presidente da Câmara e ex-secretário de educação. O grupo político do prefeito Joaquim Mamede Lima rachou na campanha, favorecendo Cezar Melo.

A vitória contra Dr. Carlos Paz valorizou demais a figura de Cezar Melo, o médico surgia como a mais nova força eleitoral, ao desbancar a família mais bem articulada do momento. Os Paz, no pleito de 82, detinha peso político considerado. Foi um dos clãs mais beneficiado na gestão de Joaquim Mamede Lima. Cezar Melo fez uma gestão satisfatória, mesmo assim não conseguiu eleger o sucessor na eleição municipal seguinte (1988). Concorreram em 88 três candidatos: Raimundo Nonato Bona (PDT), Antônio Antenor Soares Lima (PFL) e Raimundo Pereira de Sousa Filho (PT).

Foi intensa a vida política de Cezar. Após o término da sua gestão municipal, ele volta a disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Piauí (1990) e, mais uma vez, sai vitorioso. Em 1992, no mandato de deputado, retorna a disputar a prefeitura de Campo Maior e, desta vez, perde para o recém advogado Marco Bona, primo do prefeito Raimundo Nonato Bona (o Carbureto).

 

Capa de um dos cordéis do poeta José Cunha Neto-1992.

Cezar provém de uma família com forte tradição na política campo-maiorense. Na vida pública, os Melo dividem-se em três ramificações: os Quaresma-Melo, primeiro atuar na cidade (segunda metade do século 19); depois, os Melo-Castelo Branco, entre o final da primeira para início da segunda metade do século 20; e por último, e mais recentemente, os Ribeiro-Melo. Com mais de um século de atuação política, as três linhagens provém de origens e regiões distintas. A principal região que compõem os Melo de Campo Maior procede de Batalha-PI. Atualmente, o clã encontra-se no ostracismo político.

Cezar Melo nasceu em Campo Maior, a 13 de novembro de 1949. Filho de Agenor Leite Melo e Heloísa Ribeiro Melo. Casou-se, em Salvador- Bahia com a médica Arlene Gomes Lordello.  Estudou o primário no Ginásio Santo Antônio, depois cursou o ensino secundário no Colégio Marista de São Luís-MA. Graduou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia. Fez pós-graduação Hospitalar e em Saúde Pública em Tel-Avivi, Jordânia-Israel. Cursou Administração Pública em Miami, Florida-Estados Unidos. Foi superintendente do INAMPS no Piauí (1989). Diretor do Hospital Regional de Campo Maior (1978-1982). Deputado Estadual (1979-1982; 1991-1994; 1995-1998). Foi líder do governo Freitas Neto na Assembleia Legislativa do Piauí. Secretário Estadual de Articulação dos Municípios (1994).

As realizações no governo Cezar Melo não foram poucas, mas não acompanhava a crescente demanda da população por diversos serviços e obras. Ele expandiu a distribuição de água para os bairros, ao criar a estação de tratamento ETA no bairro de Flores. Construiu o Centro de Convivência do Idoso, passagens molhadas e barragens em diversas localidades rurais. Calçou várias ruas dos bairros de Flores, Fátima, Lourdes, Cariri, Estação e Santa Cruz. Construiu o paredão e o passeio para pedestre contornando o Açude Grande. Construção de conjuntos residenciais. Reforma e construção de postos de saúde e escolas na zona rural. Reformou e renomeou o Terminal Rodoviário com o nome “Zezé Paz”. Reformou as estradas dos principais povoados; a Praça Cicero Correia Lima, às margens do Açude Grande. Asfaltou ruas do centro e parte da Avenida Marechal Castelo Branco, atual Santo Antônio. Ampliação da rede elétrica na zona rural. Recuperou o controle administrativo do SAAE, antes controlado pela Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP). Apoiou a emancipação política do povoado Conceição do Brasão, atual município de Sigefredo Pacheco. Instalou telefones e televisores públicos nos bairros e povoados. Doação de terreno para Associação Universitária de Campo Maior (AUCAM).

No campo cultural, Cezar Melo, com apoio do governo do Estado, instituiu a Medalha Heróis do Jenipapo (decreto nº 12, de 11-03-1983); sancionou a lei nº 04 de agosto de 1983, que estabeleceu o Hino Municipal, uma copia grotesca da música Cidade Morena de autoria da dupla João Alves dos Santos (“Nhô-Pai”) e Rielinho. Refundou o Museu do Couro (1984).

Durante a gestão de Cezar Melo, Carbureto despontou como principal liderança de oposição. Nasce a partir daí, a polarização eleitoral que dominaria a cena política campo-maiorense entre os anos 1990 e 2000.  Nas duas eleições municipais que disputou abertamente contra Cezar Melo, Carbureto venceu ambas. Na primeira, ele mesmo, e na segunda, ao conseguiu eleger o sucessor, seu primo Marco Bona. Mas a nível estadual, Cezar Melo era quase imbatível, sobrava prestígio eleitoral, carisma e liderança. Quatro vezes deputado estadual, sem falar na eleição do irmão Maurício Melo.

Cezar Melo e Carbureto tiveram duros embates eleitorais. O pleito de 1992 foi memorável. Ao tempo em que as disputas acirravam, a política entrava numa fase de decadência. Faltavam propostas, sobravam xingamentos e acusações. A cidade começou a decair. Os anos 1990 foi uma década perdida. A imprensa foi usada para manipular e propagandear fake news.

O empobrecimento da política era visível pelas matérias de capas e reportagens dos jornais locais, principalmente da Tribuna da Liberdade, Primeira Página e Folha do Norte. Papéis e mentiras eram propagados ao vento.  Páginas e mais páginas de “dossiês”, falácias, fuxicos eram usada contra adversários. A ética foi rasgada e jogada na lata do lixo pela panfletagem jornalística. Acusações sem prova, palavrões, baixarias de todos os tipos e níveis, brigas…, a “fulanização” dos assuntos jornalísticos chegavam a propagar preconceitos, principalmente contra homossexuais que apoiavam políticos.

A distribuição de boletins anônimos era outra estratégia usada pela oposição para estragar a imagem do governo. No início, as críticas deram-se num ambiente até certo ponto inteligente, humorística e sarcástica. Depois o clima acirrou-se.

O REI NU

A nossa preocupação é a de mostrar a verdade. Este ato de confiança é a viga mestra em que se apoia toda a filosofia dos campo-maiorenses.

Vale destacar, então a situação desta cidade, outrora decantada como “terra dos carnaubais”.

Nosso Prefeito ou nosso “prefeito” é um herói, mas desse herói das revistas dos “Tarzans”: de propaganda. É isto mesmo! Suas atitudes não se harmonizam como “homem público” ou “médico humanitário”. O César ao investir-se do mandato de prefeito e como todo “vaidoso” está naquela, de ficar cheio, como papo de peru, como um rei, mas sem cetro, ladeado dos “coleguinhas interesseiros” os quais desejam um destaque, seja como for, para um lugarzinho melhor nesta cidade, sofredora calada dos males dos  césares”.

Os caprichos do jovem médico e do inexperiente “prefeito” estão deixando todos apavorados, diante da situação trágica que se encontra esta cidade abençoada por Santo Antônio. Que fazer, conterrâneos, com 600 demissões nesta nefasta administração? Vamos fazer uma reflexão. Já pensaram quantas famílias estão passando fome… enquanto a mansão do seu prefeito está de vento em popa, construindo as custas da Prefeitura… e ele o “rei” todo “poderoso” enganando os santos da terra, pois os do céu ele não enganará.

As atitudes agressivas, grosseiras, sem nexos do sr. Prefeito estão comprometendo o partido do governo (PDS), em Campo Maior. Que tenha cuidado o Governador Hugo Napoleão!

Administração atual está pior que a passada. E o prefeito César criticou tanto, tanto. Uma lastima!

O Prefeito Rei precisa ter mais consciência administrativa. Deve deixar esse orgulho de lado, pois ele está se comportando como um Rei, mas um Rei nu, sem cetro e sem veste real. Voltaremos breve….

Boletim Nº 01. (Distribuído no dia 11 de julho de 1983, às 23, 30 horas).

A imprensa sem conteúdo descia o nível das discursões e acabava se beneficiando. Os políticos passaram a investir pesado em jornais e rádios. Ampliou-se o sistema de comunicação. Nasceram mais jornais impressos, todos efêmeros. Houve o interesse pela criação de novas rádios. Cada grupo político tinha seu grupo de comunicação (jornal impresso e rádio). Começam a surgir estação de rádios amparadas por fundações, à intenção era driblar a fiscalização.  As Rádios Heróis do Jenipapo (AM) e Verdes Campos (FM) lideravam a preferência do ouvinte. As duas emissoras eram ligadas a Cezar Melo. O número de impressos dobrava em ano eleitoral.

Final dos anos 80, o Brasil estava num caos social e econômico. O País batia recorde de inflação e a Ditadura Militar derretia politicamente. O plano Cruzado do presidente Sarney (1985-1990) foi um fracasso. Mesmo num cenário nacional desfavorável, o governo Cezar Melo progrediu em alguns setores e obras. Mas não foi suficiente. A fome assustava a população mais pobre. A maior indústria do município estava em franca decadência (FRIPISA). A cera de carnaúba caiu de preço. A pobreza dificultou o acesso da população aos produtos eletrodomésticos (geladeira, televisão, rádio e fogão). A lenha e o carvão voltavam a disputar com o gás a preferência do consumidor.

Com desemprego em alto, muitos campo-maiorenses começaram a migrar para o sul do Brasil em busca de melhores condições de vida. Estagnada economicamente, Campo Maior ganhava aspecto de cidade morta. Surto de piolho e cólera em crianças escancarava as mazelas sociais. Mediante o crescimento da penúria, a corrupção eleitoral ressurgia com força. A justiça não continha a ganância dos fraudulentos. Os supostos casos de má gerência dos recursos públicos no governo Cezar Melo, investigados pela imprensa oposicionista eram estampados como caso de corrupção.

Cezar tentou amenizar o sofrimento da população carente através do assistencialismo e do empreguismo público. Ele mantinha: “uma folha de serviço social muito grande, que às vezes dificultava até o andamento de outros setores da administração. Eu procurava atender a população humilde naquilo que eu podia. E, é por isso, hoje, eu me sinto bem, quando eu ouço, mas jamais faria de novo o modo administrativo como eu fiz. Era um homem bom. Se eu soubesse de algum campo-maiorense passando dificuldades eu não o esperava vir independente de cor partidária, eu mandava atrás” (Entrevista de Cezar Melo ao Portal de Olho, 2017?).

Quando diz que “jamais faria de novo o modo administrativo” é porque tem consciência de que um político assistencialista não busca o desenvolvimento sustentável, mas a manutenção da população submissa e dependente de medidas paliativas. O assistencialismo gera um bom retorno eleitoral, às vezes, permanente. Nesse caso, a “gratidão” gera dependência.  Quanto a isso, ele é muito enfático: “Eu era um homem acessível. Todo mundo falava comigo. Não havia nenhum obstáculo na aproximação. De quem quer que fosse: eleitor meu, eleitor do Carbureto, eleitor do Zé Felipe [José Felipe de Oliveira], eleitor dos Paz”.  (Entrevista de Cezar Melo concedida ao Portal de Olho, 2017?).

Para agregar forças e manter a governabilidade, Cezar cedeu a pressões e chantagens de aliados. Como bem disse em entrevista ao Portal de Olho (2017?) foi uma gestão “carregada de aspecto político”. A fome dos aliados por cargos e barganha era insaciável. Porém administração conseguiu avançar. Cezar fez uma administração razoável.

Em conversa ao Portal de Olho, faz uma avaliação do seu governo, ao declarar: “Eu não fui um grande prefeito, o melhor de todos. Nunca desejei ser o melhor, mas também não aceito ser o pior. Eu fui um homem que administrou Campo Maior quando ainda era a grande Campo Maior”.  O desejo de ser reconhecido pelo trabalho que realizou gerou em Cezar o receio de ser mal interpretado pela história.

 

FONTE CONSULTADA

BRANDÃO, Wilson Nunes. Mitos e lendas da Política Piauiense. Teresina-PI, edição do autor, 2015.

CHAVES, Celson. História Política de Campo Maior. Campo Maior-PI, edição do autor: 2013.

LIMA, Reginaldo Gonçalves. Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia. Campo Maior-PI, edição do autor, 1995.

NETO, José Cunha Neto. Nossa Terra, Nossa Gente. Campo Maior-PI, edição do autor, 1994.

NETO, José Cunha. O que se deve fazer para viver feliz. 1992.

NETO, José Cunha. Consagração de um líder. 1978.

 

https://www.campomaioremfoco.com.br/noticia/5081/Ex-prefeito-de-Campo-Maior-confirma-que-e-pre-candidato-a-governador-do-Piaui

https://180graus.com/campo-maior/ex-prefeito-de-campo-maior-cesar-melo-recebe-alta-medica-apos-ser-internado-com-infeccao

https://www.youtube.com/watch?v=fH-jmV7X1Fk. Ex-prefeito César Ribeiro Melo concede entrevista exclusiva ao Portal de Olho

https://www.gp1.com.br/pi/piaui/noticia/2020/3/29/ex-deputado-mauricio-melo-esta-entubado-na-uti-com-suspeita-de-covid-19-474822.html

 


 

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